O que deveria ser exceção
virou regra e agora virou também condenação. A Primeira Câmara do Tribunal de
Contas de Pernambuco (TCE-PE) bateu o martelo e declarou IRREGULAR a
forma como a Prefeitura de Saloá contratou médicos entre 2018 e 2024. O recado
foi direto: houve terceirização indevida de serviços essenciais, drible ao
concurso público e maquiagem nas contas da saúde.
O julgamento, ocorrido no
último dia 27, teve relatoria do conselheiro Rodrigo Novaes e resultou no
Acórdão T.C. nº 77/2026. O processo mostra que a gestão municipal trocou
profissionais que deveriam ser concursados por médicos fornecidos por empresa
intermediária, uma prática que o Tribunal entende como burla clara à
Constituição.
Pela regra, concurso público é
a porta de entrada para cargos permanentes. A contratação de empresas privadas
só pode acontecer de forma complementar e temporária. Em Saloá, segundo o TCE,
aconteceu o oposto: a terceirização virou o modelo principal, ocupando funções
típicas e contínuas do serviço público.
Um dos pontos mais graves foi
o uso de uma Sociedade em Conta de Participação, estrutura
empresarial que, na prática, serviu como fachada para intermediar mão de obra
médica. Para o Tribunal, isso não passou de um atalho para manter profissionais
trabalhando como se fossem servidores, mas sem concurso, sem estabilidade e
fora das regras do serviço público.
A situação ficou ainda mais
escancarada porque os médicos não atuavam em clínicas próprias, como prevê o
entendimento do TCE para casos de credenciamento. Eles atendiam dentro
das unidades de saúde do próprio município, cumprindo rotinas típicas da
rede pública. Ou seja, tudo com cara de serviço público — só sem servidor
público.
A auditoria também revelou
falhas que vão além da contratação em si. Não houve pesquisa formal de preços
para definir quanto seria pago pelos serviços médicos. Pior: os gastos foram
registrados como “outros serviços de terceiros”, classificação que tira essas
despesas da conta de pessoal. Na prática, isso reduz artificialmente os números
da folha e ajuda o município a parecer dentro dos limites da Lei de
Responsabilidade Fiscal, mesmo quando a realidade pode ser outra.
Outro efeito colateral foi o
esvaziamento do quadro efetivo da saúde. Em vez de investir em concursos e
fortalecer a estrutura permanente, a gestão deixou a rede depender de vínculos
frágeis e contratos intermediados. Para o Tribunal, isso enfraquece o serviço
público, compromete a continuidade do atendimento e fere princípios básicos
como legalidade, isonomia e moralidade.
Diante do cenário, a Primeira
Câmara responsabilizou o ex-prefeito Ricardo Alves com multa de R$
11.070,09. O valor deve ser pago ao Fundo de Aperfeiçoamento Profissional e
Reequipamento Técnico do Tribunal após o trânsito em julgado, quando não couber
mais recurso.
Mas a decisão não ficou só no
passado. O TCE também colocou a atual gestão na linha de frente. O
prefeito Júnior de Rivaldo terá 180 dias para fazer um
levantamento detalhado da necessidade de pessoal, especialmente na saúde, e
adotar medidas para realizar concurso público. A meta é substituir os contratos
considerados precários por servidores efetivos.
O Tribunal ainda enviou um
alerta formal: continuar terceirizando médicos para funções essenciais pode
gerar novas punições. Em outras palavras, insistir no mesmo modelo pode sair
mais caro — politicamente e financeiramente.
A decisão do TCE-PE joga luz
sobre uma prática comum em muitos municípios: usar terceirização como atalho
para evitar concurso e aliviar a folha no papel. Em Saloá, pelo menos para o
Tribunal, a conta dessa estratégia chegou. E veio com carimbo de irregular.
Reportagem divulgada com exclusividade pelo blog do Carlos Eugênio: Blog do Carlos Eugênio Tribunal de Contas julga Irregular Terceirização de Serviços Médicos em Saloá e determina realização de Concurso Público.
Texto compilado do blog do Edney Souto. Reportagem na íntegra em: Blog do Edney.
Decisão
do TCE/PE em: TCE-PE -
Saloa.pdf está disponível para download.
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